O Instituto Marielle Franco, em parceria com a organização Narra e com apoio institucional da UFRJ, lançou a primeira turma da Escola Marielle Franco de Comunicação: Narra o Futuro, com aulas presenciais no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs), no Centro do Rio de Janeiro. Voltada a jovens negros e negras que residem ou atuam em áreas periféricas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a iniciativa buscou formar comunicadores políticos comprometidos com a transformação social e a construção de novas narrativas sobre as periferias. O curso teve como foco prático o planejamento e a criação coletiva de uma campanha direcionada à mobilização nacional para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras. O evento será realizado em 25/11, em Brasília, com o tema Por reparação e bem viver”, dez anos após a primeira mobilização.
A primeira edição do programa reuniu mais de 40 jovens negros e negras, com idades entre 18 e 35 anos. Das 40 vagas disponibilizadas, 60% foram ocupadas por mulheres, cis e trans. Além disso, o curso contou com o apoio de 20 extensionistas de diferentes cursos da UFRJ, como Ciências Sociais, Administração e Psicologia, responsáveis também pelo suporte logístico das atividades.
“A seleção dos participantes para essa ação de extensão foi difícil. Tivemos muita gente interessada, e isso se demonstrou no acompanhamento das aulas, através do alto nível dos debates durante o projeto”, conta Karina Kuschnir, professora do Departamento de Antropologia Cultural do Ifcs/UFRJ.
Com 14 encontros presenciais, os participantes receberam formação teórica, complementada por mentorias on-line e atividades práticas. A metodologia do curso valorizou a interação por meio do diálogo e da horizontalidade, permitindo a troca de experiências entre participantes, professores, extensionistas, mentores e convidados. A proposta buscou articular práticas de comunicação popular com valores como justiça social, racial e de gênero, a partir da escuta ativa, do protagonismo territorial e da construção coletiva.
Um dos pilares da ação é a valorização dos saberes e das vivências de cada participante, bem como o compartilhamento de experiências. Júlia Bethânia, 22 anos, aluna de Relações Internacionais na UFRJ e moradora do município de Queimados, relata a importância de participar da turma:
“Foi muito importante para mim, como uma mulher negra da Baixada Fluminense, ter acesso a essa formação. Além das pessoas que estavam ali para nos ensinar diretamente, como os professores, os alunos também tinham histórias e trabalhos incríveis”, ressalta a jovem.
Narrativas negras e transformação política
A Escola Marielle de Comunicação tem como objetivo fortalecer a presença de novas vozes negras nos espaços de poder e na comunicação pública. Durante o programa, os participantes aprendem sobre comunicação política, mobilização digital, estratégias de narrativa, produção de conteúdo e enfrentamento ao racismo estrutural. A formação também é uma homenagem ao legado de Marielle Franco, vereadora e defensora dos direitos humanos assassinada em 2018, cuja trajetória inspira o projeto. O curso Narrativas negras e comunicação política: Escola Marielle Franco de Comunicação – Narra o Futuro é totalmente gratuito, oferecido em formato híbrido e estruturado em dois módulos de aprendizagem: teórico e prático.
No módulo teórico, os alunos participaram de aulas e oficinas presenciais às terças e quintas-feiras, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (Ifcs/UFRJ), no Centro do Rio de Janeiro. Nessa etapa, os participantes tiveram acesso a material multimídia, exemplos práticos e acompanhamento direto dos professores. Os conteúdos abordaram temas como storytelling, comunicação política, audiovisual, redes sociais, design gráfico, imprensa, inteligência artificial e financiamento coletivo. Para garantir a permanência na formação, os alunos contaram com auxílio-transporte e lanche no local.
O módulo prático consistiu no planejamento, desenvolvimento e execução de uma campanha de comunicação, com apoio de mentorias remotas das equipes do Instituto Marielle Franco e da Narra, além da disponibilização de ferramentas técnicas de design. Os participantes foram divididos em grupos para desenvolver a campanha voltada à sensibilização e mobilização nacional para a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, como já mencionado aqui, abrangendo diferentes formas de comunicação abordadas no curso: produção de conteúdo, redes sociais, audiovisual, design, imprensa, comunicação direta e intervenções. Cada grupo recebeu uma ajuda de custo de R$500,00 para executar o trabalho.
A atividade prática incentivou a colaboração entre áreas distintas, refletindo sobre a complexidade da comunicação política contemporânea e estimulando a atuação em rede. Os participantes aplicaram os conhecimentos do módulo teórico, fortalecendo sua capacidade de criar campanhas de impacto social, estético e narrativo.
O curso reforçou o papel do Instituto Marielle Franco e da Narra, organização dedicada a amplificar narrativas sociais, com ênfase nas vozes negras e LGBTQIA PN+, na comunicação da marcha e na valorização da história do Movimento de Mulheres Negras no Brasil, uma luta antiga, coletiva e contínua. A participação da UFRJ fortalece a presença da universidade pública nas disputas contemporâneas por justiça social, racial e de gênero, integrando ensino, pesquisa e extensão.
Gabriel Pereira, 20 anos, estudante de Psicologia na UFRJ e residente de Guadalupe, ressalta o poder da comunicação política:
“No curso, a comunicação aparece não só como uma ferramenta política estratégica que disputa narrativas e fortalece movimentos sociais, mas também como um instrumento afetivo que une as pessoas em torno de uma mesma causa”, afirma o extensionista.
Durante a formação, os alunos também contaram com participações especiais de personalidades-chave da comunicação política e de movimentos sociais contemporâneos, como Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial; Raull Santiago, cofundador e diretor executivo do Instituto Papo Reto; Shirley Cruz, atriz; e Tábata Poline, repórter.
*O texto foi escrito por Júlia Araújo sob a supervisão da jornalista Pâmella Cordeiro.
