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Para ler Judith Butler: grupo de pesquisadores da UFRJ lança livro e podcast como porta de entrada para as obras da filósofa 

Iniciativa comemora os dez anos do Laboratório do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade

O Laboratório Filosofias do Tempo do Agora (Lafita), do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ, lança o livro Para ler Judith Butler e o podcast “Filosofia no Tempo do Agora”. A obra literária, escrita por 16 pesquisadores e coordenada por Carla Rodrigues, professora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e coordenadora do grupo, traz a análise, discussão e apresentação de 18 livros publicados pela filósofa Judith Butler. Já o podcast, veiculado na Rádio UFRJ, convida pesquisadores a refletirem sobre problemas filosóficos em diálogo com questões contemporâneas em episódios semanais. A primeira temporada do programa traz uma versão em áudio, voltada ao grande público, das discussões apresentadas em Para ler Judith Butler

Criado como Laboratório Escritas do Programa de Pós-Graduação em Filosofia em outubro de 2015, o grupo de pesquisa iniciou sua trajetória acadêmica com um projeto de tradução de textos filosóficos. Já em 2019, o nome do laboratório foi alterado para Filosofias do Tempo do Agora (Lafita). Ao longo dos últimos dez anos, foram realizadas traduções e pesquisas das obras de diversos autores. Nos últimos cinco anos, o grupo se dedicou especificamente à produção literária da filósofa contemporânea norte-americana Judith Butler. Boa parte da obra de Butler já estava disponível traduzida no Brasil naquele momento, porém, ainda faltavam livros importantes para o estudo da filosofia. Então, desde 2021, o grupo realizou a tradução de mais cinco livros da autora. Hoje, todas as produções literárias da filósofa estão disponíveis em português. 

Ao longo de 2024, enquanto traduziam Sujeitos do Desejo, o último livro que faltava, surgiu a ideia da criação da obra Para ler Judith Butler, onde apresentam em ordem cronológica os livros publicados pela filósofa. A produção, idealizada e coordenada por Carla Rodrigues, surgiu com dois objetivos principais: o de ser uma porta de entrada ao “mundo de Butler”, garantindo aos leitores interessados um material de referência, e o de mostrar ao público o trabalho desenvolvido no laboratório. “Quem nunca estudou Butler vai poder ter um material de consulta feito por quem estuda a filósofa há muito tempo”, garante a professora. 

Para ler Judith Butler: o que esperar do lançamento 

A partir da orientação de trabalhos acadêmicos sobre Butler e do trabalho realizado no laboratório, Carla Rodrigues convidou pesquisadores com abordagens específicas sobre a produção da filósofa para participarem do projeto. A docente explica que o laboratório busca manter a paridade de gênero e raça entre seus integrantes e que a diversidade de autores garante a multiplicidade de abordagens. Carla ressalta, ainda, que todos os livros da autora traduzidos no Brasil estão analisados, discutidos e apresentados na obra. 

A publicação reúne 18 livros, 16 deles autorais, como Corpos em Aliança e A política das ruas, apresentados na obra pelo pesquisador Nathan Teixeira, e Os sentidos do sujeito, apresentado pelo pesquisador Kissel Goldblum. Além disso, há dois livros da filósofa em diálogo com outras autoras: Quem canta o estado-nação? Língua, política, pertencimento, de Butler e Gayatri Chakravorty Spivak, autora indiana, e Despossessão: o performativo na política, diálogo com Athena Athanasiou, cientista política grega, inteiramente traduzido pela pesquisadora Beatriz Zampieri.  

O grupo ressalta a originalidade na produção literária de Butler. “A grande influência que a  autora tem e a sua maior contribuição para a filosofia é o fato de pensar violência, ética, política e outros temas sempre incluindo o gênero, questões de pessoas trans e da teoria queer”, explica Carla. Na produção, são reunidos livros como Corpos que importam: os limites discursivos do “sexo”, do final dos anos 1990, Desfazendo o Gênero, do início dos anos 2000, e Quem tem medo do gênero?, de 2024. Essa seleção cronológica permite a percepção do percurso e desenvolvimento da autora em relação ao tema “gênero”, tão marcante em sua obra. 

Nos capítulos escritos pelo pesquisador Vitor Galdino, é ressaltado o fato de Butler também estar engajada nas questões de desigualdade racial. Quando a filósofa pensa a relação entre ética e política, leva em conta como essas desigualdades se apresentam de maneira mais violentas em pessoas generificadas e racializadas. 

No movimento de expandir para além da filosofia canônica e ir em busca de outras referências, o grupo já desenvolveu diferentes estudos a partir do pensamento de Butler, como “Judith Butler: do gênero à crítica da violência de Estado” e “Tem a Filosofia algo a dizer sobre a violência colonial”, ambos financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Nas pesquisas, o grupo pensou na articulação entre violência de Estado e violência colonial, que, segundo a pesquisa, se sobrepõe de maneira brutal no Brasil. 
Carla explica que a inspiração para as pesquisas veio do livro Caminhos Divergentes, publicado em 2012 por Butler. Na obra, a autora pensa a violência colonial de Israel em relação à Palestina como uma forma de atualização da violência colonial da qual a Palestina é alvo desde o momento que o Estado de Israel foi criado, no final da Segunda Guerra Mundial. “No nosso argumento, toda violência policial exercida hoje nas periferias é uma atualização da violência colonial que nos formou. É a forma contemporânea da mesma violência colonial que formou o Brasil”, conclui. Além de Butler, autores como Frantz Fanon, Achille Mbembe, Gloria Anzaldúa, Denise Ferreira da Silva e Lélia Gonzalez passaram a compor a bibliografia do laboratório para estudar o problema da violência colonial.

Filosofia no Tempo do Agora: podcast na Rádio UFRJ 


Podcast “Filosofia no Tempo do Agora” traz reflexões sobre gênero, raça e violência em episódios semanais | Imagem: Divulgação

Pensando na integração entre pós-graduação e extensão, o grupo criou o podcast “Filosofia no Tempo do Agora” , inspirado na obra Para ler Judith Butler. A iniciativa visa ampliar o acesso à obra que, dessa maneira, poderá ser ouvida gratuitamente pelo público em geral, além dos alunos de graduação e pós-graduação, em um formato democrático. 

Veiculado na Rádio UFRJ e conduzido por Taís Sales, a primeira temporada do programa conta com 10 episódios e convida pesquisadores a refletirem sobre temas filosóficos em diálogo com questões contemporâneas presentes no pensamento de Butler, como gênero, raça e violência. Novos episódios são lançados todas às terças-feiras, às 16h, nas principais plataformas de áudio. 

Por Júlia Araújo. Sob a supervisão da jornalista Vanessa Almeida.