O I Encontro de Gestoras Negras das Universidades Federais Brasileiras, realizado nesta segunda-feira (24/11), em Brasília, reuniu mulheres negras que ocupam cargos estratégicos na gestão das instituições federais de ensino superior. O encontro, considerado um marco para a agenda nacional de equidade racial no ensino superior, discutiu desafios, estratégias e caminhos para fortalecer políticas institucionais de enfrentamento ao racismo e de promoção da diversidade.
A presença da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no encontro reforçou o compromisso institucional com a construção de ambientes acadêmicos mais inclusivos, democráticos e plurais. Em sua intervenção, a superintendente-geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (Sgaada), Denise Góes, emocionou o público ao relatar sua trajetória de 36 anos na UFRJ e a luta constante contra a invisibilidade. Para ela, ocupar espaços de decisão é uma conquista coletiva, resultado de políticas públicas e da organização de mulheres negras dentro das universidades.
“A gente trava o mar da invisibilidade. Passamos a vida inteira provando nossa capacidade, 24 horas por dia, e isso adoece. Mas chegamos até aqui criando frentes, nos organizando e enfrentando um racismo institucional muito massacrante, que tentou, por muito tempo, nos tirar do lugar de sujeito pensante na universidade”, afirmou.
Ela destacou que o avanço das políticas afirmativas abriu novas camadas de atuação e possibilitou que gestoras negras se fortalecessem mutuamente. “As políticas de ação afirmativa nos colocaram em outro lugar. Elas nos deram fôlego para nos organizar e para aquilombar pessoas que ainda estavam retesadas. Nunca pensei que fôssemos tantas”, argumentou a superintendente.
Em tom firme, Denise reafirmou a importância de ocupar cargos estratégicos. “Dizem que eu flerto com o poder. Não flerto: eu caso com o poder. E não divorcio. Demorei muito para chegar aqui. Poder é para nós também, e não abro mão desse lugar”, disse.
Denise ressaltou ainda o apoio institucional que tem recebido do reitor da UFRJ, Roberto Medronho. “Tenho um reitor que é um grande aliado. Isso tem a ver com respeitabilidade e compromisso. Chegar aqui não foi fácil, inclusive pela falta de recursos. Mas este primeiro encontro é histórico, e queremos estar em todos os próximos”, observou.
Lideranças negras das federais constroem unidade
O encontro marcou o início de uma articulação nacional entre gestoras negras das universidades federais, fortalecendo redes de apoio e troca de experiências. As participantes destacaram que a presença em cargos de direção não deve ser restrita a temas raciais. “Não me empurrem para o lugar da ‘negróloga’. Penso a universidade como um todo: orçamento, acessibilidade, diversidade. É isso que estamos fazendo aqui: gestoras negras pensando a universidade como um todo”, afirmou Denise.
A construção de políticas públicas, a defesa da democracia interna e a ocupação de espaços de governança foram apontadas como prioridades coletivas. O encontro também reafirmou a necessidade de garantir condições institucionais para que mulheres negras ascendam e permaneçam nos cargos.
UFRJ e a Marcha Nacional das Mulheres Negras
A programação em Brasília incluiu também a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada nesta terça-feira (25/11), dez anos após a primeira edição, que reuniu mais de 100 mil mulheres. A expectativa dos movimentos é superar esse marco histórico, com a participação de mulheres negras, quilombolas, ribeirinhas e diversas representações de todas as regiões do país.
Com os motes “Reparação” e “Bem Viver”, a marcha denuncia a persistência do racismo, do sexismo e da necropolítica no Brasil, celebrando a força e a organização das mulheres negras. A UFRJ esteve presente por meio da Sgaada e do projeto de extensão Nea Onnim, que atuou politicamente para apoiar a vinda de lideranças do Rio de Janeiro ao ato nacional.
Segundo Denise Góes, a participação conjunta reforça o sentido de coletividade. “Entendemos a unidade de ação como algo que traduz a força do movimento. Estar aqui, como universidade pública, é reafirmar nosso compromisso com a reparação, com a vida e com a democracia.”

Um marco para a gestão universitária brasileira
O I Encontro de Gestoras Negras das Universidades Federais simboliza um passo decisivo na construção de políticas de equidade dentro das instituições públicas de ensino superior. Para a UFRJ, a participação expressiva reafirma o compromisso da universidade com diversidade, justiça racial, democracia interna e fortalecimento de lideranças negras na gestão pública.
Durante o evento, as participantes discutiram temas como liderança negra, adoecimento decorrente do racismo institucional, visibilidade na gestão pública e a necessidade de apoio institucional contínuo para sustentar mudanças estruturais.
A UFRJ esteve representada por um grupo de gestoras que lideram políticas afirmativas na instituição. Além de Denise Góes, estavam presentes Cecília Izidoro, superintendente-adjunta da Sgaada; Sandra Batista e Márcia Meibel, ambas da Diretoria de Relações Étnico-Raciais da Sgaada; Katya Gualter, ouvidora-geral; Ângela Bretas, ouvidora da Mulher; Maria da Soledade Simeão dos Santos, diretora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi); Ana Paula Moura, diretora da Faculdade de Educação; e Cassandra Pontes, diretora do Colégio de Aplicação da UFRJ.
