Categorias
Cultura Pelo Campus

Cinerama: cineclubismo e formação crítica na Universidade

Há 15 anos, o projeto de extensão promove debates e valoriza a produção audiovisual brasileira

O auditório da Escola de Comunicação (ECO/UFRJ) é palco, todas as quintas-feiras, de sessões que vão muito além da exibição de filmes. É lá que acontece o Cinerama, projeto de extensão que, desde 2008, promove debates críticos sobre obras cinematográficas, especialmente brasileiras e latino-americanas, com curadoria feita por professores e estudantes.

A extensão universitária é um dos pilares que sustentam a vida acadêmica, ao lado do ensino e da pesquisa. Ela busca estabelecer uma troca dialógica para além dos muros institucionais, estabelecendo um intercâmbio  entre  saberes acadêmicos e experiências da comunidade. A extensão é a promoção do diálogo, participação social e a construção coletiva de conhecimento. 

É nesse espírito que o cineclube se consolida como uma ação extensionista: ao mesmo tempo em que estimula o olhar crítico e o estudo aprofundado da linguagem cinematográfica, cria espaços para encontros e a troca entre estudantes, professores e a sociedade. Os debates, a exibição dos filmes e a circulação livre de ideias transforma o cinema em mais que uma arte que proporciona entretenimento: passa a ser também espaço de reflexão e participação cidadã. 

Na prática, os cineclubes já possuem, em essência, o mesmo objetivo. Em geral, são formados por grupos de pessoas, em espaço físico ou virtual, dedicados à exibição e discussão de filmes. No Brasil, a prática foi e é importante para a formação de cineastas e de público, consolidando, assim, uma potente cultura cineclubista, em que o movimento apresenta forte apelo social e cultural, utilizando o cinema como ferramenta de transformação.  

A professora Guiomar Ramos, que assumiu a coordenação do projeto em 2012, conta que uma das mudanças significativas foi transformar o Cinerama também em disciplina eletiva ‒ aquelas que, embora não façam parte do currículo obrigatório do curso, podem ser escolhidas pelos estudantes como uma forma de complementação da experiência acadêmica. “Antes, era um evento superimportante, mas que não tinha uma frequência exata. Ao virar disciplina, passou a ter exibições semanais, ampliando muito a programação e os debates”, explica.

Formação e protagonismo estudantil

No Cinerama, estudantes não apenas assistem aos filmes: eles participam ativamente da curadoria, conduzem debates e avaliam resenhas críticas escritas por colegas matriculados na disciplina. “É muito legal ver os monitores enfrentando os desafios de dar nota, justificar avaliações e lidar com questões como faltas e presença. Eles desenvolvem responsabilidade, senso crítico e, muitas vezes, vencem a timidez ao falar em público”, diz Guiomar.

Gabriel Araújo, 26 anos, estudante do curso de Radialismo, atua como extensionista e coordenador do projeto. Sua participação reflete não só o amor pelo cinema, mas o propósito de resgatar no público a admiração sobretudo pelo cinema nacional. “A vivência que tenho aqui me fez entender, perceber e valorizar a pluralidade de vozes e de leituras  possíveis que existem dentro de um único filme. É bonito ver como o filme ganha significados próprios dentro de cada pessoa que o assiste”, conta.

A proposta curatorial prioriza as produções brasileiras, seguidas de obras latino-americanas e filmes que estimulem discussões. “A gente não está aqui para assistir filmes com Coca-Cola e pipoca. O interessante é debater sobre conteúdo e linguagem”, reforça a coordenadora.

Sara Mendes, 29 anos, estudante de Ciência da Computação, também extensionista e coordenadora, comenta que a participação deu a ela momentos memoráveis, como a exibição do filme Dois Nilos, dirigido por dois ex-alunos da ECO: Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro. Na ocasião, eles contaram com a presença do cineasta Afrânio Vital. “Ver o cineasta tocado com o interesse de uma nova geração com as suas obras, que foram filmadas na época do cinema marginal, foi incrível. Acho que essa lembrança resume muito bem o coração do nosso trabalho”, relembra Sara.

Cineclubismo ontem e hoje 

Para Guiomar, o cineclubismo é um instrumento histórico e essencial para pensar o cinema e a sociedade. Ela lembra que essa prática foi fundamental no Cinema Novo e durante a ditadura militar. “O cineclube é sempre dentro dessa perspectiva, essa é a intenção do cineclubismo, uma atividade que faz parte do cinema e aqui é usada para entender o Brasil e o mundo. Podemos revisitar diferentes épocas, desde os anos 1960 até produções contemporâneas, para discutir questões políticas e culturais”, afirma.

Sara reforça que a cultura cineclubista nasce do encontro e favorece a circulação das obras, dando visibilidade para filmes feitos por mulheres, pessoas negras e produções latino-americanas, ampliando a visão de mundo e criando um espaço de identificação dentro da Universidade. “O filme não termina nos créditos. Aqui, ele renasce no debate e vai ganhando novos significados através dos prismas de cada vivência na plateia. Acredito que a mágica acontece aí: quando o cinema, o espaço físico vai se moldando ao público como um organismo vivo”, diz.  

Projeção para o futuro

Atualmente, o Cinerama vive uma fase de expansão. Guiomar destaca o prazer de ver os monitores cada vez mais envolvidos e sendo os protagonistas das atividades. “Meu maior prazer é que os alunos tenham consciência do papel do cineclube dentro da Universidade e na cidade do Rio. E que aproveitem para crescer aqui dentro, perder a timidez, aprender a debater e se expressar.”

A professora também ressalta que aprende muito com os estudantes. “O que eu mais aprendo é a humildade e o respeito pelo papel de cada um. O Cinerama é quase uma comunidade, com alunos de vários cursos trabalhando juntos.”

Sara complementa que existe um esforço contínuo para enriquecer a experiência do público que participa. “Enquanto estudante da UFRJ e extensionista, acredito muito no potencial da curadoria. Nós buscamos dar prioridade às obras fora do circuito comercial. Nos esforçamos sempre para tentar trazer para o debate pessoas que fizeram parte da produção cinematográfica das obras exibidas, assim como pesquisadores e críticos da área de cinema”, conclui. 

Dessa forma, o Cinerama recebe, vez ou outra, ex-alunos que voltam para apresentar filmes premiados e reveza sua programação combinando memória e contemporaneidade, renovando seu público e suas propostas.

*  O texto foi escrito por Tatiane Alves sob a supervisão da jornalista Vanessa Almeida.