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O stonewall islâmico?

Uma revista vem causando furor no mundo islâmico. A publicação “Mithly”, ao contrário do que muitos podem pensar, não tem cunho religioso ou fundamentalista, tampouco divulga críticas ao Ocidente. Ela se destaca por ser a primeira revista gay a circular em árabe numa nação de maioria muçulmana, o Marrocos. Lançada clandestinamente em abril, por um grupo de marroquinos expatriados, a revista virou notícia no mundo. Cerca de 200 exemplares foram distribuídos, gratuitamente, em Rabat, capital do Marrocos, o que chamou a atenção dos jornais locais e da mídia internacional.

Em 20 páginas, a revista esbanja engajamento político: traz testemunhos de homossexuais que assumiram publicamente a orientação sexual e uma matéria sobre o Dia Internacional da Mulher, comemorado em 8 de março. Mas vai além: demonstra também coragem. Isso porque, no país, a homossexualidade é considerada crime. Segundo a legislação, “atos licenciosos cometidos com indivíduos do mesmo sexo" podem ser punidos com prisão de seis meses a três anos. 

A realidade de preconceito não é exclusiva do Marrocos. Segundo o relatório 2010 da Associação Internacional de Gays e Lésbicas (ILGA) sobre homofobia do Estado, em sete países a homossexualidade pode até ser punida com pena de morte. Todos eles são de maioria muçulmana. “Ter uma revista, originária de um país de maioria islâmica, que defenda outra perspectiva diante de gays e lésbicas, mostra como as coisas são bem mais complexas do que parecem e que a cultura não é algo estático ou estereotipado como a gente costuma ver”, pontua Alexandre Bortolini, funcionário da Pró-reitoria de Extensão (PR-5) da UFRJ e coordenador do Projeto Diversidade Sexual na Escola, que visa munir os profissionais de Ensino de informações capazes de mitigar o preconceito no ambiente escolar.

O governo marroquino ainda não se pronunciou sobre o assunto, mas o silêncio do Estado não freou o interesse geral pela publicação. O site da revista já registrou cerca de 1 milhão de acessos desde a criação. Na opinião de Bortolini, o alto número de visitações da página evidencia que assuntos ligados à sexualidade humana e à quebra de regras impostas pela sociedade chamam os indivíduos à reflexão. “Falar de homossexualidade não é falar apenas dos homossexuais. Significa falar sobre normas e padrões hegemônicos que regem toda a sexualidade humana. É falar sobre o que podemos ou não podemos fazer com os nossos próprios corpos, é falar sobre o que é ser homem e o que é ser mulher. Portanto, é um assunto que interessa, e muito, a todo mundo, inclusive quem se assume heterossexual. Porque estamos falando de sexualidade, de prazer, de amor, de regras que mexem com a nossa própria maneira de amar e de sentir prazer”, afirma.

Para o jornalista, apesar do preconceito manifesto por alguns textos religiosos muçulmanos, incorre em erro aquele que generaliza a cultura islâmica. Ele enfatiza, entretanto, que essa cultura, composta por indivíduos, pode se modificar. “Quando nós olhamos para o Marrocos, não podemos achar que ali existe uma única cultura, fechada, pronta, acabada, que deva ser simplesmente respeitada. O que existe são sujeitos, que estão permanentemente construindo e reconstruindo os significados que dão ao mundo. Assim, o que tem que ser respeitado não é uma cultura fechada, mas os sujeitos que vivem naquele país e a sua autonomia”.

Mudanças

A criação de uma revista gay em língua árabe pode ser considerada um ato simbólico tão contestatório quanto a Rebelião de Stonewall, de junho de 1969. Aquele ano foi marcado por uma série de conflitos violentos entre gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros e a polícia de Nova Iorque. O motim passou para a história como o evento catalizador dos movimentos ocidentais em defesa dos direitos civis LGBT.

Com movimentos organizados mais combativos, os homossexuais passaram a experimentar maior liberdade, e a delimitação do seu espaço na mídia foi se ampliando. “A população LGBT vem ficando mais visível na mídia. Acho que a grande diferença hoje é que há um movimento organizado, que cobra, reclama, briga cada vez que a televisão ou a imprensa falam alguma besteira ou agem de maneira preconceituosa. Nada muda sozinho ou por acaso. Cada um de nós, como sujeitos que somos, é que fazemos as coisas mudarem”, observa Alexandre.

Apesar dos avanços verificados nos últimos anos, o jornalista aponta que o caminho a ser trilhado para o efetivo exercício da cidadania LGBT ainda é longo. Inclusive em países ocidentais. “Até hoje o Congresso Brasileiro não aprovou uma única lei que garanta qualquer direito que seja para gays, lésbicas, travestis ou transexuais. De acordo com o Relatório Anual de Assassinato de Homossexuais (LGBT) elaborado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), 198 homossexuais foram assassinados em 2009 no Brasil, especificamente pela sua identidade sexual. Talvez a gente é que precise de um Stonewall”, sublinha.