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“Dr. Medronho”: o principal inimigo da dengue

 Quando o assunto é dengue, qualquer reforço que ajude no combate ao mosquito transmissor e conscientize a população pode ser um importante aliado contra a inimiga número um da saúde pública no Rio de Janeiro. Roberto Medronho, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da UFRJ, sabe muito bem. Cerca de 23 anos envolvido nessa luta, o epidemiologista faz sua estréia, em dezembro, nos quadrinhos. A revista “A Turma do Bairro contra a Dengue”, editada pelo Senac, será distribuída em escolas e comunidades carentes com o objetivo de divulgar, entre os mais jovens, ações preventivas contra o mosquito Aedes aegypti.

– Fui convidado para ser personagem de uma revista em quadrinhos que conta a história de uma turminha disposta a lutar contra a dengue e mobilizar a comunidade no combate à doença. Eles me chamaram para orientá-los em medidas preventivas, que envolvem, por exemplo, tapar caixas d’água, desentupir ralos e calhas de casas e condomínios, não deixar lixo acumulado, secar as lajes após as chuvas, ou seja, não deixar, sob nenhuma hipótese, água parada onde o mosquito possa depositar seus ovos – conta o professor, que será o “Dr. Medronho”.

Para o epidemiologista, a mídia desempenha um papel fundamental na batalha contra a dengue, contribuindo para a disseminação de informações e denunciando as falhas dos programas de controle da doença. Inserida nesse processo de difusão do conhecimento, a revista permitirá que crianças e jovens identifiquem-se com os personagens e passem a cobrar de adultos as iniciativas de combate à proliferação do mosquito transmissor.

Carioca do Ano e defensor da cidade
Fã de praia, amante de futebol, fundador de bloco carnavalesco e compositor de samba de raiz, Roberto Medronho é um genuíno carioca. Não é à toa que o epidemiologista recebeu, no último dia 11, o prêmio “Carioca do Ano”, concedido pela revista Veja Rio em reconhecimento ao trabalho que desenvolve como defensor da cidade contra a dengue. Comprometido com o assunto desde 1985, quando ocorreram os primeiros casos da doença no estado do Rio, Medronho, desde então, vem se dedicando incansavelmente ao tema.

– O pesquisador não deve contribuir apenas com suas pesquisas, deve ser também um crítico da sociedade, deve emitir suas opiniões diante dos problemas sociais. Acredito que faz parte do meu processo como pesquisador e docente apontar falhas nos programas de controle da dengue e propor alternativas e soluções inovadoras que ajudem na melhoria da qualidade de vida do carioca – afirma.

Parceria contra a dengue
Medronho revela que a revista “A Turma do Bairro contra a Dengue” faz parte dos projetos desenvolvidos pela parceria entre o Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) da UFRJ e a Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (FECOMÉRCIO-RJ). Segundo o professor, a entidade, que reúne o setor empresarial do estado do Rio, decidiu participar da campanha contra a dengue e estabeleceu um Convênio de Cooperação Científica, Técnica e Acadêmica com a UFRJ.

– Tradicionalmente, costumamos cobrar que as autoridades governamentais e a população façam sua parte, o que é uma obrigação desses setores. No entanto, muito pouco se tem cobrado de outros setores da sociedade, como, por exemplo, a classe empresarial. A FECOMÉRCIO me procurou espontaneamente, sensibilizada com a questão da dengue e da última epidemia que tivemos, uma das mais graves. Sua participação é, portanto, muito importante, já que o governo sozinho não consegue combater a doença. Todos os setores da sociedade devem se mobilizar – destaca o especialista.

De acordo com ele, a parceria envolve ainda uma série de outras atividades relacionadas à doença, como, por exemplo, a elaboração de um inquérito sorológico sobre o vírus da dengue no estado. A idéia é identificar entre a população indivíduos que já tenham sido infectados pelos vírus 1, 2 e/ou 3 e realizar, assim, um mapeamento dos locais mais expostos a cada sorotipo, uma vez que áreas onde os vírus já se manifestaram antes apresentam menor risco de processos endêmicos.

Previsões para 2009
Para o próximo ano, Medronho acredita que o quadro de dengue no Rio de Janeiro será melhor do que em relação a 2008. No entanto, não pelo fato de ter sido controlado e, sim, porque um grande número de pessoas já adoeceu durante a epidemia de sorotipo-2 do verão passado e está imune a este tipo de vírus.

– Algumas áreas ainda apresentarão um número maior de casos, já que a epidemia não chegou a esses locais antes. Há uma expectativa de ocorra uma epidemia em alguns municípios da Baixada e do Noroeste Fluminense, da região dos Lagos e mesmo do Médio Paraíba. O quadro não é realmente animador, apesar de não ser pior do que o verão passado. No entanto, não devemos relaxar. É para manter o alerta – previne o especialista.