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Pamplonão em obras

Depois de 20 anos de infiltrações e problemas estruturais, o ateliê de Pintura da Escola de Belas Artes da UFRJ entrou em reforma, no último dia 10. Popularmente chamado de Pamplonão, o espaço passará, durante 120 dias, por reparos no telhado. A recuperação desse local é uma vitória para alunos, professores e diretores da Escola.

agencia2486T.jpgAs obras de recuperação do ateliê de Pintura da Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ, conhecido como Pamplonão, começaram na última segunda-feira, dia 10 de abril. Os reparos terão a duração de 120 dias e contam com o apoio da Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento (PR-3), da Prefeitura Universitária e da Superintendência de Patrimônio e Finanças(SG-6).

Durante 20 anos, o Pamplonão apresentou graves problemas de infiltração. Os buracos no telhado e os cobogós (capelas de vidro) quebrados permitiam que a água da chuva escorresse pelo ginásio e danificasse telas de alunos e o mobiliário do ateliê. A iluminação deficiente e a pouca conservação eram outros empecilhos à plena utilização do espaço pelos estudantes.

Outras tentativas, algumas delas inconclusas, foram feitas em gestões anteriores, mas não conseguiram sanar os problemas estruturais do local. “As obras realizavam várias impermeabilizações sucessivas no teto, o que nunca resolvia o problema. Dessa vez, elaboramos um projeto específico, buscando resgatar a concepção do plano inicial de impermeabilização”, explicou Edson Bastos de Alkmin, engenheiro responsável pela elaboração e fiscalização da obra do Pamplonão. O atual projeto de recuperação pretende construir uma caneleta curva para o escoamento da água, além de trocar os cobogós por venezianas moduladas feitas de PVC, material extremamente resistente.

A reforma do Pamplonão prevê também uma segunda etapa, a ser realizada com verbas de bancada, disponibilizadas pelo deputado federal Roberto Freire e pela Fundação Universitária José Bonifácio (FUJB). Nessa fase, os tanques e a mobília serão recuperados e o piso será revestido, o que facilitará a manutenção da limpeza do ateliê. “Não podemos melhorar as partes internas enquanto o telhado estiver em más condições”, afirma Ângela Ancora da Luz, diretora da Escola de Belas Artes.

Devido à impossibilidade de haver aulas no prédio durante as obras, os estudantes foram realocados. Os alunos dos cursos de Pintura e Oficina de Pintura foram transferidos para o Centro Acadêmico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (CAFAU). Já os estudantes de Desenho Artístico e de Modelo Vivo terão suas atividades ministradas no mesanino, próximo aos elevadores do prédio da Reitoria.

Por causa do fracasso das obras anteriores, muitos alunos estão insatisfeitos com as novas alocações e desacreditam nesta iniciativa de reparação. “O acúmulo das experiências negativas faz com que eles confiem, desconfiando”, comenta a diretora Angela. A esperança de ter um espaço melhor para as aulas, no entanto, acaba por suprimir o pessimismo. “A gente sempre espera que seja uma mudança produtiva”, diz o estudante do 3º período do curso de Pintura, Cláudio Labri. Os alunos estão cientes das dificuldades enfrentadas pela escola no processo de restabelecimento do Pamplonão, o que não os impede de fazer reivindicações. “Passamos boa parte do nosso tempo aqui. A Universidade é como uma casa e o que nós queremos é uma casa limpa e organizada, que ofereça condições para o artista trabalhar. Isso é o básico”, ressalta o estudante de 37 anos.

Uma preocupação constante da direção da EBA é manter a configuração estética do ateliê após as obras. Apesar de não ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Pamplonão é um prédio emblemático do estilo modernista e preservar essa característica é um imperativo do projeto de reparação. “Não vai haver perda de identidade visual do local”, garante a diretora da escola.

As mudanças não serão apenas estruturais, isso porque, com o fim das obras, o espaço será reinaugurado e rebatizado com o nome de Ateliê Cândido Portinari. Essa é uma homenagem que a EBA presta a um de seus ex-alunos mais ilustres. Na década de 20, o pintor modernista freqüentou os cursos livres da instituição e lá conquistou notoriedade e seus primeiros prêmios.

A reforma do Pamplonão é a concretização de um desejo antigo da direção e dos alunos da EBA. Ela vai disponibilizar mais um amplo espaço físico para a manifestação da arte, o aprendizado acadêmico e a construção profissional de centenas de universitários.

Histórico

O prédio que abriga a EBA, a FAU e a Reitoria foi idealizado pelo arquiteto Jorge Moreira, na década de 50. Autor de vários projetos de reconhecido valor arquitetônico, Jorge Moreira integrou o grupo de Le Corbisier ao lado de outros grandes nomes como Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Inicialmente, o espaço que está em obras de recuperação era utilizado por alunos da FAU como ginásio esportivo. Trinta anos depois, o cenógrafo Fernando Pamplona, professor da EBA, conseguiu permissão para ali constituir um ateliê de pintura. A partir de então, o local foi passou a ser conhecido carinhosamente como Pamplonão.